"Quando os marujos tem que carregar um fardo muito grande ou levantar âncoras, para poder levantar um peso muito grande, para serem capazes de um esforço extremo, eles todos cantam juntos para se animarem e darem força uns aos outros. Que é isto que falta aos artistas!"
Quando Artaud escreveu "O suicidado pela sociedade" acertou tanto quanto Van Gogh em seus amarelos. Van Gogh teria apontado a espingarda para si, mas a sociedade em sua avassaladora hipocrisia é que puxaria o gatilho. Se não fossem as "Cartas a Theo" (coleção "Rebeldes e malditos") que o pintor escrevia a seu irmão -diariamente!- não teríamos a dimensão histórica de sua passagem e sua representatividade humana. Theo seu desvelado irmão mais novo era quem o bancava, e também sucumbiu à tragédia morrendo muito jovem, deixando mulher e filho pequeno após o suicídio do artista.
Visionário, pintor compulsivo (chegou a criar mais de quarenta quadros num dia!), bebedor inveterado, amante exagerado -quando recolheu "Sien" a prostituta mendiga para viver com ele como sua mulher, toda a cidade lhe fechou as portas- Van Gogh exemplificava o criador em sua "fúria divina". Sua vida não se distinguia das fortes pinceladas de seus quadros. Seus cânones eram demasiado humanos e buscou por compreensão toda a sua existência. Irascível, tido como o holandês louco, Van Gogh acreditava num atelier onde todos os artistas viveriam juntos, pintariam juntos, e discutiriam suas obras. E aí é que a coisa parece ter virado novela mexicana -Theo pagou a Gaughin secretamente para que fingisse fazer parte do sonhado atelier, e dai para Van Gogh atirar sobre a cara do estimado mestre um copo de absinto, perseguí-lo com uma navalha, cortar a própria orelha e entregá-la a sua amante ex-cafetina, e na ocasião dona de restaurante (onde expunha as obras dos artistas), foi como se diz, um pulo.
As cartas para seu irmão nos mostram um ser aflito e em permanente combustão, tudo é importante para ele, cada gesto, cada palavra, mas para a sociedade não passava de mais um pintor, mais um vagabundo perambulando pela Europa e Paris, a cidade luz. Portanto não fossem as cartas sua história de vida teria que ser extraída apenas de seus quadros. Van Gogh, uma geração após os impressionistas foi o precursor do expressionismo –o pintar não o que se vê, mas o que se sente (e daí a importância de sua história pessoal)- e permeou todo o entulho causado pela grande explosão de “ismos”, influenciando radicalmente e permanentemente, como divisor de águas, o que hoje conhecemos como modernidade nas artes.
Reinaldo Simões



















